
Fuzileiros navais dos Estados Unidos desembarcam em Incheon em 15 de setembro de 1950. Imagem de USMC Archives, licenciada sob CC BY 2.0.
A Guerra da Coreia foi travada entre 1950 e 1953, depois que a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul ao cruzar o paralelo 38. Ela começou como um conflito coreano pela reunificação após o domínio colonial japonês e rapidamente se tornou uma das primeiras grandes crises militares da Guerra Fria. Os Estados Unidos lideraram uma força das Nações Unidas para defender a Coreia do Sul. A China interveio para impedir que uma força hostil chegasse à sua fronteira. A União Soviética armou e aconselhou a Coreia do Norte, sem entrar em guerra direta contra os Estados Unidos.
A guerra transformou a divisão coreana em uma confrontação militar permanente da Guerra Fria na Ásia. Antes de 1950, a contenção estadunidense ainda dependia bastante de ajuda econômica, diplomacia e defesa da Europa Ocidental. Com a Guerra da Coreia, a contenção passou a exigir forças maiores, alianças duradouras, bases na Ásia e planejamento para guerras limitadas sob a ameaça nuclear.
Resumo
- A Coreia esteve sob domínio japonês desde 1910, e a libertação de 1945 não deixou um governo nacional aceito que pudesse assumir o poder em toda a península.
- Os Estados Unidos e a União Soviética dividiram a aceitação da rendição japonesa no paralelo 38. Essa solução militar provisória tornou-se uma fronteira política entre dois Estados rivais em 1948.
- A Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul em 25 de junho de 1950 após Kim Il-sung concluir que o apoio soviético e a fragilidade do Exército sul-coreano tornavam possível a reunificação pela força.
- O boicote soviético ao Conselho de Segurança permitiu que a ONU condenasse a invasão e recomendasse assistência militar à Coreia do Sul.
- O desembarque de MacArthur em Incheon, em setembro de 1950, cortou as linhas norte-coreanas e transformou uma guerra defensiva em uma campanha rumo à fronteira chinesa.
- A China interveio diante da aproximação de uma força liderada pelos Estados Unidos ao rio Yalu, uma ameaça à fronteira chinesa e à sobrevivência de um Estado-tampão comunista.
- Truman demitiu MacArthur em abril de 1951 após o general contestar o controle civil da guerra e defender a ampliação do conflito contra a China.
- O armistício de 1953 interrompeu os combates perto da linha inicial. A paz formal ficou pendente.
- A Coreia tornou a contenção mais global, mais militarizada e mais vinculada às alianças asiáticas.
Por que a Coreia foi dividida depois do domínio japonês
A Coreia havia sido anexada pelo Japão em 1910, durante a expansão imperial que se seguiu à Restauração Meiji. O domínio japonês subordinou a política, o trabalho, a língua e a terra coreanos às necessidades do império. Quando o Japão se rendeu em 1945, a Coreia foi libertada do colonialismo e ficou sem uma autoridade nacional aceita para toda a península. Os nacionalistas coreanos defendiam projetos diferentes, muitos líderes tinham vivido no exílio, e os Aliados ainda careciam de um mecanismo prático para transferir a soberania.
Os Estados Unidos e a União Soviética dividiram a aceitação da rendição japonesa na Coreia no paralelo 38. A linha respondia a uma urgência militar, não a um plano de fronteira permanente. Tropas soviéticas ocuparam o norte, e forças estadunidenses ocuparam o sul. Na prática, cada ocupação favoreceu forças políticas coreanas diferentes. Kim Il-sung consolidou-se na zona norte sob proteção soviética. Syngman Rhee se tornou a figura central do Estado sulista apoiado por Washington.
O projeto de reunificação fracassou diante de projetos incompatíveis para a ordem política coreana. O controle soviético da zona norte confinou ao sul as eleições supervisionadas pela ONU. Instituições separadas tornaram-se, então, Estados separados: a República da Coreia no sul e a República Popular Democrática da Coreia no norte, ambas criadas em 1948. A divisão tornou-se perigosa porque cada governo coreano reivindicava toda a península, ao passo que a Guerra Fria dava a essa reivindicação patronos externos, armas e urgência ideológica.
Por que a Coreia do Norte invadiu o Sul em 1950
A invasão de 25 de junho de 1950 resultou de vários cálculos. Kim Il-sung queria reunificar a Coreia sob autoridade norte-coreana. O Exército sul-coreano era mal equipado, e a Coreia do Sul havia enfrentado revoltas, violência política e choques de fronteira. Vista de Pyongyang, a estrutura estatal do sul parecia vulnerável o bastante para cair diante de uma campanha rápida.
Os sinais externos também pesaram. A União Soviética apoiara o fortalecimento militar norte-coreano, e Stalin acabou aprovando o plano, embora buscasse limitar o risco de uma guerra direta com os Estados Unidos. A China de Mao Zedong, fundada em 1949 após a vitória comunista na guerra civil chinesa, oferecia outro possível apoio. As autoridades estadunidenses não haviam formulado para a Coreia do Sul um compromisso defensivo tão explícito quanto para o Japão ou as Filipinas. Os dirigentes norte-coreanos interpretaram essas condições como uma oportunidade.
O ataque quase teve êxito. As forças norte-coreanas tomaram Seul rapidamente e empurraram os defensores sul-coreanos e estadunidenses para o perímetro de Pusan, no sudeste. Nessa fase, a guerra ainda era uma luta pela sobrevivência da Coreia do Sul. A ofensiva inicial mostrou que o paralelo 38 era uma fronteira armada entre dois Estados que ainda tentavam se eliminar politicamente.
Por que a invasão virou uma guerra da ONU
A resposta da ONU dependeu de um acidente procedimental com consequências enormes. A União Soviética boicotava o Conselho de Segurança para protestar contra a permanência do assento chinês nas mãos da República da China, em Taiwan, e não da República Popular da China. Como o delegado soviético estava ausente, Moscou não pôde usar seu veto.
Em 25 de junho de 1950, a Resolução 82 do Conselho de Segurança pediu que a Coreia do Norte cessasse as hostilidades e voltasse ao paralelo 38. Em 27 de junho, a Resolução 83 recomendou que os membros da ONU ajudassem a Coreia do Sul. Em 7 de julho, a Resolução 84 recomendou que os Estados que enviassem forças as colocassem sob um comando unificado liderado pelos Estados Unidos. Essa fórmula criou uma coalizão autorizada pelas Nações Unidas sob direção operacional estadunidense: os Estados Unidos forneceram a maior parte das tropas, do comando, dos navios, dos aviões e da orientação política.
Essa distinção é essencial. Truman usou a Carta da ONU como base legal e política da intervenção e comprometeu forças por ação executiva. A Guerra da Coreia tornou-se, portanto, um teste para a capacidade das Nações Unidas de responder a uma agressão e mostrou quanto essa resposta dependia do poder estadunidense.
Incheon e a passagem da defesa ao avanço para o norte
No fim do verão de 1950, forças sul-coreanas e da ONU mantinham uma posição defensiva estreita ao redor de Pusan. O general Douglas MacArthur propôs um desembarque anfíbio em Incheon, o porto próximo de Seul e situado muito atrás das linhas norte-coreanas. O plano era arriscado: marés, lamaçais, diques e acessos estreitos dificultavam a operação. Sua lógica estratégica, porém, era clara: se o desembarque desse certo, ele ameaçaria as linhas de abastecimento norte-coreanas e obrigaria o Exército invasor a combater em duas direções.
O desembarque de Incheon, em 15 de setembro de 1950, teve sucesso. As forças da ONU retomaram Seul e quebraram o impulso da ofensiva norte-coreana. O campo de batalha mudou rapidamente. O que começara como uma operação para salvar a Coreia do Sul tornou-se um avanço pela Coreia do Norte. O mandato do Conselho de Segurança falava em repelir o ataque e restaurar a paz. No entanto, a vitória criou a tentação de reunificar a península pela força sob controle sul-coreano.
Incheon foi o ponto de virada decisivo da guerra ao deslocar a pergunta política da defesa da Coreia do Sul para a possível destruição da Coreia do Norte. Essa mudança expôs os limites da estratégia de coalizão. Para a Coreia do Sul e MacArthur, avançar para o norte parecia completar a libertação. Para a China, parecia a chegada de um Exército hostil ao rio Yalu e à fronteira da Manchúria.
Por que a China entrou na guerra
Os dirigentes chineses advertiram que não aceitariam uma força liderada pelos Estados Unidos em sua fronteira. A preocupação deles ia além da solidariedade ideológica com a Coreia do Norte, pois a Manchúria havia sido central para a revolução chinesa, para a indústria e para a segurança do país. Se a Coreia do Norte desaparecesse, a China perderia um Estado-tampão e teria forças alinhadas a Washington perto do nordeste chinês em meio à consolidação do poder da República Popular após a guerra civil.
As forças da ONU cruzaram o paralelo 38 e avançaram em direção ao Yalu. Em outubro e novembro de 1950, tropas chinesas entraram na guerra em grande número sob o nome de Voluntários do Povo Chinês. A fórmula ajudava Pequim a evitar uma declaração formal de guerra contra os Estados Unidos. Mesmo assim, a intervenção foi grande o bastante para transformar o conflito. As forças da ONU recuaram, Seul mudou de mãos novamente, e a frente acabou se estabilizando perto do paralelo 38.
A intervenção chinesa mostrou que reverter o comunismo tinha custos diferentes de contê-lo. Defender a Coreia do Sul podia ser apresentado como resistência a uma agressão. Destruir a Coreia do Norte arriscava abrir uma guerra asiática muito mais ampla. A contraofensiva chinesa forçou Washington a aceitar que o poder militar da Guerra Fria tinha limites quando a escalada ameaçava provocar outro conflito entre grandes potências.
MacArthur, Truman e o controle civil
O choque entre Truman e MacArthur nasceu de duas definições diferentes de vitória. Truman queria uma guerra limitada: preservar a Coreia do Sul, evitar guerra direta com a China ou a União Soviética e impedir que o conflito coreano se transformasse em uma guerra mundial nuclear. MacArthur queria uma ação mais ampla contra a China, incluindo ataques a bases chinesas e pressão capaz de expandir o conflito.
As declarações públicas de MacArthur questionaram a política do governo. Ele usava seu prestígio como comandante da Segunda Guerra Mundial para defender publicamente outro objetivo de guerra. Em 11 de abril de 1951, Truman o retirou do comando. A decisão desagradou muitos estadunidenses. Ainda assim, fixou um princípio constitucional: generais conduzem operações militares sob autoridade civil.
A questão nuclear deu a esse princípio um alcance maior do que uma regra institucional. Os Estados Unidos haviam usado bombas atômicas contra o Japão em 1945. Na Coreia, porém, resistiram a pressões por escalada nuclear sem empregar a arma. A demissão de MacArthur marcou uma fronteira da Guerra Fria: comandantes em uma guerra limitada permaneciam subordinados a decisões civis sobre escalada e política nuclear.
Por que o armistício não foi um tratado de paz
Depois que a frente se estabilizou, a guerra tornou-se uma disputa de posições, artilharia, aviação, incursões e negociações. As conversas de armistício começaram em 1951 e se arrastaram por dois anos. As questões mais difíceis envolviam a linha de demarcação, a supervisão do cessar-fogo e a repatriação dos prisioneiros. Muitos prisioneiros não queriam voltar para o lado que os reivindicava, o que transformou a repatriação em problema político e humanitário.
O armistício foi assinado em 27 de julho de 1953 por representantes militares do Comando das Nações Unidas, do Exército Popular da Coreia e dos Voluntários do Povo Chinês. O presidente sul-coreano Syngman Rhee se opôs a um acordo que deixava a Coreia dividida e não assinou. O acordo criou uma linha de demarcação militar e a Zona Desmilitarizada, destinada a separar as forças. Ele interrompeu os combates e deixou pendentes as relações diplomáticas, a soberania e o reconhecimento mútuo entre os dois Estados coreanos.
Um armistício é um cessar-fogo militar, não uma paz política. Por isso, a Guerra da Coreia pôde terminar no campo de batalha ao mesmo tempo em que o conflito coreano continuava. A península permaneceu dividida, fortemente militarizada e vinculada aos sistemas de alianças da Guerra Fria.
Como a guerra mudou a contenção
Antes da Coreia, a contenção ainda estava sendo definida. A Doutrina Truman, o Plano Marshall e a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte concentravam-se sobretudo na Europa e no Mediterrâneo. A Coreia ampliou a contenção para a Ásia e colocou a prontidão militar no centro da política dos Estados Unidos. Washington aumentou a produção de defesa, reforçou o papel estratégico do Japão, manteve forças na Ásia e mais tarde assinou um tratado de defesa mútua com a Coreia do Sul.
A guerra também mudou a forma como Washington interpretava movimentos comunistas. Os Estados Unidos passaram a tratar, com frequência crescente, conflitos regionais como partes possíveis de um desafio comunista coordenado, mesmo quando causas locais eram centrais. No relato de Henry Kissinger sobre o início da Guerra Fria, a contenção aparece como o princípio orientador da política ocidental após a ruptura da cooperação de guerra. A Coreia deu a esse princípio uma forma militar fora da Europa.
Para a Coreia, as consequências foram mais imediatas e devastadoras. Milhões de soldados e civis morreram, foram feridos, deslocados ou separados de suas famílias. Cidades e aldeias foram destruídas. Os dois Estados coreanos sobreviveram em uma península dividida. O resultado final foi uma guerra que restaurou aproximadamente a linha em que havia começado e transformou a geografia militar da Guerra Fria. O conflito provou que os Estados Unidos combateriam sob mandato da ONU para deter uma expansão comunista, que a China combateria para proteger sua fronteira e que as armas nucleares condicionariam a estratégia mesmo quando não fossem usadas.