Unificação da Alemanha: Origens, Guerras e o papel de Bismarck

Proclamação do rei da Prússia como rei da recém-criada Alemanha, no Palácio de Versailles, em território francês. Pintura por Anton von Werner. Domínio público.

Até a segunda metade do século XIX, a Alemanha, como um único Estado soberano, não existia. Em seu lugar, havia uma abundância de pequenos reinos, cada qual com seu príncipe: Bavária, Hesse, Württemberg, Hanover, e Luxemburgo são alguns exemplos. Havia também dois reinos tidos como principais, por terem maior território e pela influência que ostentavam perante os demais: a Áustria e a Prússia. A história da unificação alemã corresponde à gradual aglutinação dos territórios desses reinos, em um processo que, embora dominado pelas duas potências germânicas, foi determinado por todos os Estados da região. De certa forma, todos tiveram algum papel nas guerras de unificação e nas vitórias ou fracassos militares que definiram tais conflitos.

Antecedentes da unificação

A formação da Alemanha moderna teve o seu pontapé ideológico com a Era Napoleônica e a cooptação de vários Estados europeus pelos franceses. Para Napoleão, em linhas gerais, apenas importava captar dois recursos germânicos: homens para encorpar o Exército francês e dinheiro para financiá-lo. Por causa disso, surgiu uma relação predatória, porque a França se aliava a elites locais germânicas e obtinha tudo aquilo de que precisava, às custas dos povos germânicos. Esse mecanismo de cooptação, por mais que bem sucedido no curto prazo, contribuiria para a formar alguns traços comuns entre os variados povos germânicos: aversão à França, nacionalismo, e militarismo em defesa da pátria.

Decerto, a identidade germânica não era uma só. Cada população, a depender das circunstâncias de sua exploração pelos franceses, reagiria de forma diferente a isso — motivo pelo qual é possível falar que existiam nacionalismos e militarismos, no plural. No entanto, o repúdio aos franceses em geral, e não apenas ao regime napoleônico, era algo uniforme e especial. Esse repúdio servia como ponte para ligar as diferentes identidades da região: os povos germânicos podiam até divergir quanto aos seus propósitos e objetivos imediatos, porém a maioria deles (senão a totalidade) identificava-se em oposição à França.

Ao final da Era Napoleônica, o status quo na Europa Central se havia tornado insustentável. Lá havia uma multiplicidade de pequenos Estados, geralmente fracos e sem coesão, os quais eram vistos pelos arquitetos do pós-guerra como vulneráveis a um futuro ataque francês. Para os representantes diplomáticos enviados para o Congresso de Viena, era mister garantir um arranjo que consolidasse a influência das potências europeias e estabilizasse o Velho Continente. Com isso, eles decidiram extinguir alguns reinos, beneficiar outros, e criar uma Confederação Germânica: uma única entidade para reunir politicamente os povos que, até então, viviam com pouca integração. Essa confederação teria o predomínio da Áustria e da Prússia. Caberia a ela a garantir que a Europa Central seria mais homogênea e menos vulnerável à cobiça da França.

Em termos políticos, houve uma maior integração germânica, por meio da Dieta de Frankfurt (um arranjo entre os monarcas locais), ainda que a Áustria prevalecesse nela. A integração econômica também aumentou, graças ao avanço do Zollverein, uma união aduaneira encabeçada pela indústria prussiana. Apesar disso, o fortalecimento militar da região — pedra angular do esquema montado em Viena — não foi observado de imediato. Àquela época, a Prússia de Frederico Guilherme IV modernizava suas Forças Armadas, desenvolvendo-a de forma técnica e científica. Contudo, as maiores preocupações de segurança dos austríacos estavam na Península Itálica, onde eles tinham variados interesses estratégicos; e os demais Estados germânicos eram frágeis demais para defenderem proativamente seus próprios territórios.

Em meio às revoluções liberais de 1848, observou-se, na Prússia, a criação do chamado “Parlamento de Frankfurt”: uma tentativa de impor uma constituição à monarquia prussiana e de unificar o país aos demais reinos germânicos. Os revoltosos foram reprimidos duramente por Frederico Guilherme IV, porém suas ideias seriam reutilizadas posteriormente. Logo depois, em 1849, baseado nos ideais de Frankfurt, o monarca da Prússia propôs a unificação da Confederação Germânica em uma federação constitucional, liderada justamente por ele. A Áustria, que acabaria sendo marginalizada por isso, voltou-se contra a proposta e convenceu os outros Estados quanto ao perigo de uma hegemonia da Prússia na Europa Central. Por meio do Pontilhado de Olmültz, um acordo ad hoc, austríacos e prussianos concordaram em resolver em conjunto o futuro da Confederação Germânica. Se não fosse por isso, talvez eles teriam optado pela guerra.

Guerra dos Ducados (1864)

Nos anos seguintes ao pacto de Olmültz, diante de uma crise sucessória na Dinamarca, as duas potências germânicas tentaram inclusive cooperar de forma mais ampla. Os ducados de Schleswig e Holstein tinham relações históricas com os germânicos, mas eram vinculados pessoalmente à coroa dinamarquesa. Entretanto, com a morte do monarca dinamarquês em 1863, seu sucessor legítimo tentou vincular institucionalmente ambos os ducados à Dinamarca. Isso levou austríacos e prussianos a cogitarem o pleito de outro sucessor ao trono, o qual seria mais favorável aos interesses germânicos. Todavia, a resposta final da Confederação Germânica foi militar e política: um envio de tropas aos ducados e um acordo, entre Áustria e Prússia, para que ambos definissem o status da região.

O conflito que se sucedeu à chegada das forças externas aos ducados dinamarqueses é conhecido como a “Guerra dos Ducados”. A literatura costuma considerá-lo como a primeira guerra de unificação alemã, pois dele resultou a anexação de ambos os ducados de Schleswig e Holstein à Confederação Germânica. De acordo com a Convenção de Gastein (1865), austríacos e prussianos compartilhariam a soberania sobre os ducados, porém a administração de cada um deles seria feita separadamente.

Esta é uma pintura a óleo dinâmica que retrata uma cena da Segunda Guerra de Schleswig. Ela representa uma cena de batalha intensa com soldados envolvidos em combate. Os soldados, vestindo diversos uniformes que indicam diferentes regimentos, estão mostrados avançando por um barranco de areia em direção a uma posição inimiga. O primeiro plano está repleto de soldados de infantaria armados com rifles e baionetas, alguns no calor da batalha, outros caídos. A fumaça dos tiros obscurece parte do fundo, onde bandeiras estão sendo erguidas no meio da luta. O céu dramático acima sugere o caos da batalha. Detalhes como expressões faciais, o movimento dos soldados e o equipamento de guerra espalhado pelo chão contribuem para a representação vívida da guerra do século XIX nesta pintura.
Na Guerra dos Ducados, austríacos e prussianos lutaram contra a Dinamarca para controlar Schleswig e Holstein. Pintura de Wilhelm Camphausens. Domínio público.

Guerra Austro-Prussiana (1866)

O espírito cooperativo da Convenção de Gastein ocultava a continuidade das tensões entre as duas potências germânicas — afinal, a Áustria via-se cada vez mais ameaçada por uma Prússia que melhorava suas Forças Armadas e tinha grandes ambições econômicas para o Zollverein. Do mesmo modo, a monarquia prussiana sabia que suas pretensões desafiariam os austríacos.

Não surpreende, portanto, que, após a Guerra dos Ducados, os membros da Confederação Germânica não se tenham acomodado com a paz. Cada potência germânica tentava buscar apoio internacional para contrastar as ações da outra: a Prússia aliou-se à recém-criada Itália; a Áustria reforçou seus laços com os Estados germânicos do Sul. O estopim para o choque entre ambas veio logo em 1866, quando os austríacos denunciaram os atos dos seus rivais na Confederação Germânica, e a Prússia dissolveu essa associação. Assim que a Áustria se apresentou como protetora dos pequenos Estados germânicos contra a suposta “agressão” prussiana, Otto von Bismarck, o chanceler da Prússia, declarou casus belli. Desse modo, começava a “Guerra de Irmãos” (1866), a segunda guerra de unificação alemã, na Europa Central e na Itália.

Na Península Itálica, a Áustria conseguiu batalhar relativamente bem, com base em confrontos mortíferos que desmoralizavam os italianos — até porque esse era o principal teatro de operações das forças austríacas há muito tempo.

No teatro de guerra alemão, porém, a situação era bastante diferente. A Prússia desfrutava de todo o progresso técnico, científico e militar que ela havia construído nas décadas anteriores. Suas ações eram organizadas, sistemáticas e extremamente eficazes, em parte devido a uma série de novos armamentos que ela possuía. Por outro lado, os males austríacos eram patentes: tropas caóticas e desmotivadas eram comandadas por oficiais indecisos, que tomavam decisões equivocadas e realizavam sucessivos recuos problemáticos.

Na Batalha de Königgrätz, quando os austríacos finalmente tiveram uma chance real de reagir a seu malogro, já era tarde demais. A Prússia venceu a guerra e impôs a criação de uma Confederação Germânica do Norte (incluindo os Estados germânicos do Norte e ambos os ducados dinamarqueses) e o poder de definir (à força, se necessário) suas relações com os Estados germânicos do Sul.

Guerra Franco-Prussiana (1870-1871)

Enquanto a Prússia lidava com as consequências da guerra de 1866, que catapultou seu poder no território europeu, os austríacos sofriam ainda mais. Devido ao Compromisso de 1867, o Império Austríaco passou a ser uma monarquia dual, composta pela Áustria e pela Hungria.

Ainda que se previsse certa integração entre as Forças Armadas dessas monarquias, em termos práticos, os húngaros não se dispunham a apoiar quaisquer iniciativas militares no território germânico. Por causa disso, o máximo que a Áustria pôde fazer para contrastar o poderio prussiano foi uma aliança “em princípio” com a França, que temia uma hegemonia da Prússia na Europa Central. O estadista francês Napoleão III também firmou uma outra aliança “em princípio”, com o monarca italiano Victor Emmanuel, em troca da retirada das tropas francesas que ocupavam Roma em defesa da Igreja Católica.

Napoleão III queria arregimentar a Áustria e a Itália como aliados pois a Prússia desafiava vários interesses franceses. Para aceitar reconhecer o surgimento da Confederação Germânica do Norte, ele propôs a anexação francesa de Luxemburgo (área ocupada por franceses) e da Bélgica — o que foi prontamente rejeitado pela Prússia. Em vez disso, Bismarck convocou uma conferência internacional, na qual as potências do Concerto Europeu concordaram em tornar Luxemburgo um território neutro, o que significava uma derrota para a França.

Outro problema veio com uma crise de sucessão na Espanha. Um parente do rei da Prússia pretendia ascender ao trono espanhol, mas isso poderia encurralar a França entre dois domínios da dinastia Hohenzollern — a Espanha de um lado e a Prússia do outro. Essas questões impulsionavam Napoleão III a fazer uma declaração de guerra, mas isso foi postergado várias vezes, pois a França estava em desvantagem contra uma Prússia militarmente sofisticada e moderna.

A primeira tentativa de solução da crise de sucessão espanhola foi pacífica: um embaixador francês viajou para fazer gestões junto ao rei da Prússia. Embora o monarca se tenha comprometido a não apoiar as pretensões de um parente seu ao trono espanhol naquele momento, a recusa em tornar esse compromisso algo permanente tornou-se o pomo da discórdia. No Despacho de Ems, o ministro de Relações Exteriores da Prússia relatou a Bismarck como ocorreu o encontro entre o embaixador e o rei prussiano. No entanto, esse relato foi propositadamente adulterado por Bismarck, de modo a tornar as palavras nele ofensivas para ambos alemães e franceses. Ao divulgar o texto editado à imprensa, Bismarck acabou por estimular vigorosos protestos em Berlim e em Paris. Assim, começou a terceira guerra de unificação alemã: a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871).

Para Napoleão III, os acordos com a Áustria e a Itália faziam com que essas alianças estivessem garantidas, embora fossem apenas intenções. Esse cálculo errôneo contrastava com a capacidade prussiana de somar suas próprias tropas àquelas dos demais Estados germânicos — com a exceção da Áustria —, que haviam progredido militarmente sob os moldes da Prússia. Dessa forma, o conflito opôs, mais uma vez, militares bem preparados contra militares despreparados: ainda que a França conseguisse revidar certos avanços prussianos, sua inépcia técnica impedia-a de concluir bons ataques. Além disso, por mais que os franceses tivessem uma ampla gama de tropas, sua superioridade numérica não compensava a precisão dos armamentos germânicos. No mesmo ano de 1870, portanto, o II Império Francês colapsou devido aos fracassos militares, dando lugar a uma república, enquanto Napoleão III tornava-se prisioneiro de guerra.

Sob a Terceira República Francesa, porém, o conflito persistiu e a coalizão liderada pelos prussianos chegou até os arredores de Paris. A essa altura, o equilíbrio de forças havia mudado consideravelmente: se os franceses estavam na retaguarda, por ter um inimigo cercando a capital, os germânicos também enfrentavam problemas. Por estarem dentro da França, as tropas germânicas tinham de lutar tanto contra a resistência parisiense, simbolizada pela Comuna de Paris, quanto contra a resistência das populações francesas do interior. Essa guerra em duas frentes causou certas dificuldades, as quais levaram a Prússia a bombardear Paris, como forma de forçar uma rendição da população local. Isso não funcionou no início, mas, com o tempo, iniciaram-se negociações para a paz — e elas foram realizadas em evidente condição de desequilíbrio entre os dois beligerantes.

Esta fotografia histórica em preto e branco retrata as consequências do bombardeio de Paris durante a Guerra Franco-Prussiana. A cena mostra uma rua com edifícios danificados; alguns estão parcialmente em colapso, com destroços e destruição visíveis. As fachadas das estruturas restantes estão crivadas de buracos e mostram sinais de bombardeio. No primeiro plano, há uma carruagem puxada por cavalos e algumas pessoas seguindo com suas atividades diárias, indicando que a vida continua em meio às ruínas. Um monte de entulho está empilhado ao lado da rua, e ao fundo, um campanário de igreja intacto se eleva acima da devastação, contrastando com a destruição circundante. A imagem captura um momento de resiliência em uma cidade marcada pela guerra.
Fotografia da região de Saint-Cloud, nos arredores de Paris, após os bombardeios realizados pelos alemães. Imagem por Adolphe Braun. Domínio público.

Ao final das negociações entre franceses e alemães, firmou-se um armistício e um tratado de paz, o Tratado de Frankfurt (1871), com os seguintes destaques:

  • A unificação da Alemanha seria oficializada, com a coroação do rei Guilherme I, anteriormente da Prússia, como monarca do novo país.
  • Os alemães anexariam a região da Alsácia-Lorena.
  • A França deveria pagar indenizações de guerra aos alemães, e seria ocupada militarmente até que essa dívida fosse quitada.
  • Como medida de reafirmação da derrota que, até então, não era aceita pelo povo francês, seria realizada uma humilhante “parada da vitória” em Paris.

Esse conjunto de estipulações do Tratado de Frankfurt alimentaria, no curto e no longo prazo, o revanchismo franco-germânico. Enquanto a nação francesa se esforçava para quitar suas dívidas de guerra e encerrar a ocupação de seu território, os alemães completavam seu processo de integração e expandiam sua atuação diplomática, pela liderança de Bismarck. As sequelas deixadas pela guerra, contudo, permaneceriam latentes em ambos os Estados e, ao longo do século XX, desembocariam em novos conflitos entre eles.

Conclusão

A unificação alemã foi tardia, porque ocorreu apenas na segunda metade do século XIX. Entretanto, foi um processo que ocorreu com grande velocidade, porque reuniu dezenas de pequenas monarquias em um período de apenas sete anos.

Após a fundação do país, Bismarck consolidou-se ainda mais no poder e articulou uma aliança entre nobres (Junkers) e burgueses para industrializar o país. No plano doméstico, a sociedade alemã era militarizada, e o Exército detinha imenso prestígio político. Nas relações internacionais, a Alemanha unificada tentou propagar a ideia de que o país estava satisfeito com o status quo na Europa — ou seja, que os alemães evitariam engajar-se em outras guerras. Essa foi uma estratégia deliberada, visando ao isolamento internacional da França.

Bismarck permaneceu no poder até 1890, equilibrando seu país em meio às potências europeias. Todavia, após a morte do rei Guilherme I, o chanceler foi forçado a demitir-se do cargo pelo novo monarca, Guilherme II, que queria impor uma política externa baseada no expansionismo territorial e militar. Tamanha foi a influência de Bismarck na vida política da Alemanha que, após sua retirada, os alemães teriam menos sucesso em garantir seus objetivos no plano internacional. A guinada da Alemanha da moderação para o militarismo pode ser entendida como uma das causas de longo prazo da Primeira Guerra Mundial.


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